Por favor, outra rodada de etanol

Autores: Camilo Terranova | cterranova@waycarbon.com  e Isabela Aroeira | iaroeira@waycarbon.com

 A recém-lançada Quinta Avaliação sobre a Base Cientifica de Mudanças Climáticas do Painel Intergovernamental de Mudanças Climáticas (IPCC, 2013) reforçou evidências científicas de avaliações passadas sobre os impactos das mudanças climáticas.

Se por um lado as atividades econômicas antrópicas são consideradas a causa dominante dessas mudanças, por outro essas mesmas atividades econômicas sofrerão os impactos, sejam positivos ou negativos, da alteração do clima. Em linhas gerais o relatório do IPCC conclui que:

  • A Influência humana foi identificada como principal responsável pelo aquecimento global, causando: aumento da temperatura da atmosfera e oceanos; mudanças no ciclo hídrico; mudanças em ciclos biogeoquímicos; reduções de neve e gelo, tanto em geleiras como em áreas oceânicas; aumento do nível médio do mar e mudanças de extremos climáticos.
  • Os efeitos das mudanças climáticas irão persistir por muitos séculos, mesmo que as emissões de Gases de Efeito Estufa (GEE) cessassem por completo hoje. Assim, o controle das emissões demandam no presente um compromisso substancial da sociedade, uma vez que essas mudanças serão ainda observadas por um longo período de tempo.

 

Dentro desta perspectiva, a sociedade civil por meio de inúmeras ONGs e mídia em geral, consistentemente, aponta como culpados as empresas e os Governos. Porém, as ações diárias de cada um de nós parecem estar sempre em segundo plano, ou até mesmo desconectadas do problema.

Como consumidores temos o poder de criar demanda para produtos que contribuam para uma sociedade mais inclusiva e mais verde. E podemos ainda, como investidores e acionistas das empresas abertas, influenciar diretamente por meio da participação em assembleias, por exemplo. Ademais e com mais eficiência, podemos de forma indireta, por meio dos fundos de investimentos a quem confiamos a gestão de nossos patrimônio, exigir maior transparência e resultados das empresas no que tange às questões de sustentabilidade, quer seja a respeito de mudanças climáticas ou outros aspectos que julguemos relevantes, como o uso da água ou a destinação de resíduos.

Nesse curto artigo, observando o comportamento do consumidor quando abastece seu carro, demonstro que em 3 estados, nos quais a gasolina é menos competitiva, as mudanças climáticas não estão no topo de prioridades da maioria dos usuários de transporte individual, mesmo sendo essa escolha irracional do ponto de vista econômico. Em seguida, demonstro que nos demais estados a opção pela gasolina, apesar de ser economicamente racional, é certamente pouco racional do ponto de vista da sustentabilidade. Esse fato reflete a não preocupação real da maioria das pessoas em relação às mudanças climáticas, apesar do pequeno custo incremental pela escolha do combustível renovável.

Primeiramente, olhamos as diferenças dos preços médios, tanto da gasolina como do etanol, entre janeiro de 2012 e janeiro de 2013, e a proporção entre esses combustíveis por estado. Conforme amplamente difundido, abastecer o tanque com etanol só é viável do ponto de vista econômico se o preço do etanol for menor ou igual a 70% do preço da gasolina. Conforme ilustrado na Figura 1, a seguir, apenas três estados estão na média, nessa situação.

Figura 1. Proporção dos preços do etanol em relação ao da gasolina.

G1

Olhando dessa maneira, na média, motoristas que abasteceram seus carros em São Paulo, Goiás e Mato Grosso somente com etanol, obtiveram economias de R$5,00; R$6,00 e R$12,00 mensais, respectivamente, devido à escolha feita na bomba do posto de abastecimento. Para fins desse artigo, consideramos que na média um motorista dirige 10.000Km por ano e que o consumo do etanol é, em média,  de 7Km por litro e o de gasolina 10Km por litro.

A Figura 2, a seguir, apresenta o custo em R$ por km gasto pelos motoristas no estado de São Paulo, evidenciando que nesse estado abastecer com gasolina não é uma decisão racional do ponto de vista econômico, e muito menos do ponto de vista da sustentabilidade.

Figura 2. Gastos mensais com etanol vs gasolina no Estado de SP

G2

A Figura 3, a seguir, apresenta o custo em R$ por km gasto, na média, pelos motoristas nos estados de Goiás e Mato Grosso, respectivamente, evidenciando que nesses estados abastecer com gasolina também não é uma decisão racional, nem do ponto de vista econômico, muito menos do ponto de vista das mudanças climáticas.

Figura 3. Gastos mensais com etanol vs gasolina nos Estados de GO e MT

G3

Considerando as mesmas premissas e os valores estaduais do combustível renovável, escolher etanol ao invés de gasolina teria causado menores prejuízos econômicos nos estados do Paraná (R$ 6/mês), Tocantins (R$ 15/mês) e Minas Gerais (R$ 18/mês). Os estados com maiores prejuízos seriam o Piauí, Rio Grande do Sul e Roraima, que desembolsariam, na média, R$55/mês e R$56/mês extras respectivamente, pela escolha racional do ponto de vista econômico, mas irracional do ponto de vista das mudanças climáticas. Como média nacional, o custo adicional pelo uso do etanol ficaria em R$33,00 mensais.

Ao invés de fazermos algum tipo de discurso, apresentando dados e evidências sobre a necessidade de ação conjunta e coordenada de diferentes setores da sociedade e dos impactos negativos do ponto de vista econômico, social e ambiental pela falta de ação condizente com a ciência de mudanças climáticas, resolvemos fazer outro levantamento: o preço da caipirinha na cidade de São Paulo. Conforme artigo da Veja: “Em cinquenta bares o valor da caipirinha de limão com cachaça especial varia de 13 a 45 reais”.

Considerando os valores atuais dos carros novos e todos os outros dispêndios associados à compra e uso desse bem (como seguro, estacionamento, manutenção, depreciação, pedágios, entre outros), e além, é claro, do custo de uma caipirinha, a análise nos permite concluir indiscutivelmente que:

  • A caipirinha em São Paulo está absurdamente cara;
  • Tomar uma decisão ambientalmente correta na hora de abastecer seu veículo custa muito pouco, em média R$ 33,00 por mês. Esse valor em São Paulo, na maioria dos casos, corresponde aproximadamente a uma caipirinha;
  • Apesar do discurso da maioria das pessoas, em geral solidárias aos temas de sustentabilidade, na prática a sociedade se preocupa apenas com o próprio bolso.

Aqui na WayCarbon a decisão foi unânime, pedimos pro garçom cancelar a última caipirinha e enchemos o tanque com o etanol de cana de açúcar. A ação pode ser tímida perto do consumo total de combustível no Brasil,  mas temos a certeza de que estamos fazendo nossa parte.

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