Ondas de Frio reaquecem debate sobre Mudanças do Clima

Texto atualizado em julho de 2017

Autor: Fábio Bicalho | fbicalho@waycarbon.com

Neste ano, ondas de frio têm feito estados brasileiros vivenciarem baixas temperaturas que estão chamando a atenção da população. No começo da segunda quinzena de julho de 2017, uma massa de ar polar vinda da Argentina ameaça trazer frio intenso para o Brasil, e pode ser a massa polar mais forte sobre o centro-sul da América do sul neste ano.

No país, as regiões mais atingidas por essa massa foram o Sul e o Sudeste, onde a sensação de frio está mais intensa. A capital Belo Horizonte teve a menor temperatura dos últimos 7 anos, chegando a 9,4°C. Em Santa Catarina, o Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) registrou 5,3°C, temperatura que ultrapassou o recorde anterior 7,5°C.

Em meio a esse cenário, a polêmica sobre o aquecimento global volta a aparecer. Nas redes sociais, encontramos postagens de figuras públicas que, a partir das baixas temperaturas deste inverno, questionam a existência do aquecimento global.

Mudanças do clima

Em 2014, não foi diferente. Duas semanas foram o bastante para que o ano se mostrasse como um período de extremos. Ao mesmo tempo em que o Brasil experimentou temperaturas bastante elevadas, com a sensação térmica no Rio de Janeiro ultrapassando os 53 graus Celsius, uma intensa onda de frio nos Estados Unidos – a mais severa dos últimos 20 anos – ganhou as manchetes de todo o mundo.

Resultado de um fenômeno chamado vórtice polar, as temperaturas na América do Norte alcançaram níveis tão baixos que também deram fôlego aos questionamentos feitos pelos “céticos do aquecimento global”, entre os quais membros do Partido Republicano, representantes da ala mais conservadora da imprensa norte-americana e, o atual presidente dos EUA (na época, “somente” magnata), Donald Trump. Em suma, a pergunta feita por todos eles era: “onde está o aquecimento global se os Estados Unidos estão congelando?”

 

Mudanças do clima

Ironicamente, o debate sobre a onda de frio tornou-se bastante acalorado no período. Foi necessário que o governo dos Estados Unidos, por meio de comunicado expedido pelo assessor científico de Barack Obama, Dr. John Holdren, se manifestasse sobre a aparente controvérsia: “Se você tem escutado que os períodos de frio extremo, como o que temos nos Estados Unidos agora, desmentem o aquecimento global, não acredite”.

Na verdade, não precisamos acompanhar essas discussões de perto para concluir que os argumentos empregados pelos céticos podem ser facilmente refutados. Afinal, ao se falar em aquecimento “global”, é razoável supor que o fenômeno envolva toda a superfície terrestre, e não apenas os Estados Unidos ou o Brasil, certo?

Não se deve esquecer que, enquanto o Brasil enfrenta temperaturas mais baixas do que a média, várias localidades do Hemisfério Norte têm registrado temperaturas máximas históricas, como Los Angeles, que alcançou aproximadamente 36em julho deste ano, quebrando um recorde de 131 anos, Xangai, em que está prevista a temperatura máxima de 40,9 C° e o Irã, onde oficialmente foram registrados 53,7 graus celsius, a maior temperatura registrada no país.

Dados de longo prazo, como os representados no seguinte gráfico da NASA, a Agência Espacial Norte-Americana, indicam que, apesar de variações anuais de temperatura, cada uma das últimas três décadas tem sido, em média, mais quente que a anterior:

tabela

(Clique na imagem para ampliá-la) Fonte: NASA/GISS.

O escritório britânico de meteorologia Met Office, em 2015, também divulgou a informação de que a temperatura média do planeta naquele ano chegou a medir mais de 1C° em relação a temperatura do início da Revolução industrial.  

Veja o gif criado pelo cientista Ed Hawkins que mostra como a temperatura média do planeta foi aumentando ao longo dos anos:

O comportamento dos céticos do aquecimento global pode ser explicado por um estudo desenvolvido pela Universidade de Columbia e publicado na Nature Climate Change em janeiro de 2014. Os resultados desses estudos indicam que indivíduos tendem a acreditar mais nas mudanças climáticas em dias quentes do que em dias frios. O efeito, denominado “aquecimento local”, resulta da tendência desses indivíduos em basear suas opiniões em informações de acesso mais fácil e imediato (como a temperatura local), ainda que o conhecimento científico indique o contrário.

Na verdade, o aquecimento global não tem como única consequência o aumento da temperatura do ar próximo à superfície da Terra e dos oceanos. há razões científicas para associar o aumento da frequência de eventos climáticos extremos às mudanças climáticas. Porém, ainda não há evidências suficientes para atribuir a esse fenômeno os episódios vivenciados no Brasil e nos Estados Unidos, ao menos não de forma imediata. Por outro lado, tampouco há motivos para se refutar o aquecimento global.

É difícil afirmar que eventos específicos são uma consequência direta das mudanças climáticas. Normalmente, a prática científica consiste na observação da ocorrência desses eventos ao longo do tempo a fim de constatar possíveis mudanças na sua frequência e na sua intensidade. Assim, somente no futuro poderemos saber, com base em uma série histórica de ocorrências, como a mudança do clima tem se manifestado por meio dos eventos climáticos extremos.

Por sua complexidade, é natural que o estudo das mudanças climáticas seja permeado de incertezas. Com a descoberta do “aquecimento local”, porém, podemos esperar que, no futuro, períodos frios serão acompanhados de novas ondas de declarações polêmicas emitidas por figuras públicas.

 

Não nos deixemos enganar: faça chuva ou faça sol, o aquecimento global seguirá sendo uma realidade. Cabe a nós agir em resposta aos desafios que ele nos impõe.

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