Análise de Ciclo de Vida: entenda o impacto de um produto

Você já se perguntou qual o impacto de um produto no meio ambiente? Quais são os processos envolvidos desde a extração das matérias primas, passando pelo transporte, pela transformação na indústria, o uso de embalagens, chegando ao consumo e, finalmente ao descarte? Quais as consequências das atividades realizadas ao longo da cadeia produtiva e no uso final do produto? Quanta energia, água, poluentes e outros recursos naturais, renováveis e não renováveis, estão incorporados nos bens que consumimos?

Para entender todos os impactos associados a um sistema produtivo, desenvolveu-se uma metodologia denominada Análise de Ciclo de Vida (ACV). Os primeiros estudos datam do final da década de 1960 e do inicio da década de 1970, avaliando os aspectos do ciclo de vida de produtos e materiais. Neste período, as ACVs focavam na eficiência energética, no consumo de matérias primas e, em menor profundidade, na geração de resíduos.

Por exemplo, em 1969, a Coca Cola financiou uma Análise de Ciclo de Vida para comparar o consumo de recursos associados à embalagem dos refrigerantes. A pergunta era simples: sob a ótica ambiental e do consumo de recursos naturais, é melhor utilizar embalagens de vidro, plástico, alumínio ou aço?

Portanto, a ACV (ou Life Cycle Analysis – LCA, em inglês) é uma metodologia poderosa de avaliação ambiental. Por princípio, estudos de ACV tendem a quantificar os impactos do berço ao túmulo, ou seja, desde a extração da matéria-prima até o uso e descarte final. Por permitir uma avaliação pormenorizada dos impactos em cada uma das etapas de produção, a Análise de Ciclo de Vida fornece informações valiosas para a indústria. A partir da ACV pode-se avaliar a maneira mais eficaz para reduzir o impacto de um produto, além da necessidade de se engajar com fornecedores e consumidores finais para buscar a minimização de impactos além das unidades produtivas da empresa.

Continue acompanhando e entenda mais sobre a ACV:

Uma breve história da Análise de Ciclo de Vida

Apesar de ter surgido na década de 1960, pode-se considerar a ACV uma ferramenta ainda jovem. Esse tipo de estudo ganhou força e espaço a partir da década de 1980. Em 1992, na ECO-92 no Rio de Janeiro, a ACV foi considerada uma das ferramentas mais promissoras para avaliação de impactos e suporte para a gestão ambiental.

Em 1993, a publicação The LCA Sourcebook apresentou de maneira estruturada os avanços da metodologia e uma pesquisa sobre a utilização da Análise de Ciclo de Vida para gestão ambiental. Nesse período, identificou-se que a ACV atraía ainda pouco interesse, nada além de “uma pequena comunidade de cientistas europeus e norte americanos“. Contudo, o Sourcebook pôde identificar uma tendência crescente de aplicações práticas da ACV no mundo real.

Entre as principais barreiras para um avanço mais rápido da ACV no setor privado destaca-se a pouca experiência de profissionais, as altas expectativas e a ausência de dados. Esta combinação de fatores levou a um período de desilusão, no qual havia um “sentimento de que a maioria das empresas utilizando ACV o estava fazendo apenas para fortalecer um posicionamento empresarial existente, e não para entender impactos em profundidade e responder as questões realmente relevantes” (EEA, 1997).

Os anos 2000 são marcados pela consolidação de normas e de metodologias, e pelo desenvolvimento de ferramentas e de bancos de dados para utilização e para a elaboração de Análises de Ciclo de Vida. Atualmente, identifica-se que a maior demanda para que se propague a utilização da ACV é a sua simplificação. Isso ocorre porque os estudos ainda são bastante complexos e demandam conhecimento específico. Outro ponto comumente levantado como inibidor da realização de tais estudos é o da apresentação dos resultados. Segundo a Agência Dinamarquesa de Proteção Ambiental (DEPA), é necessário encontrar formas simples de comunicação dos resultados, de maneira que o cidadão comum possa entender as implicações de uma ACV na prática. Atualmente, algumas iniciativas internacionais e nacionais podem ser destacadas. Clique nos links abaixo para saber mais:

  • U.S Life Cycle Inventory Database: um repositório gratuito de fatores de emissão e dados para a realização de Análise de Ciclo de Vida;
  • EPA LCA Resources: porta da Agência de Proteção Ambiental norte americana. Fornece normas, boas práticas, artigos, estudos de caso, softwares e fatores de emissão;
  • LCA Commons:  informações sobre iniciativas abertas e open-source, organizações envolvidas em estudos de Análise de Ciclo de Vida e banco de dados;
  • ELCD: European Reference Life Cycle Database é a base de dados e fatores de emissão para Análise de Ciclo de Vida disponibilizada pelo JRC da Comissão Européia;
  • Open LCA: é o principal software gratuito para desenvolvimento de Análise de Ciclo de Vida;
  • ACV INMETRO: conceitos e função da ACV apresentado pelo INMETRO

A norma ISO para Análise de Ciclo de Vida

A ACV tem como linha mestra a série de normas ISO 14.040, destinada pela Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) à gestão ambiental. Nela, estão descritos os princípios e a estrutura de uma Análise de Ciclo de Vida.

São quatro estágios presentes na estruturação da LCA:

  • Definição de metas e do escopo;
  • Análise de inventário;
  • Avaliação de impacto;
  • Interpretação.

Se quiser saber mais sobre a ISO 14.040, você pode encontrá-la aqui. Em breve falaremos mais sobre normas específicas para Análise de Ciclo de Vida, como a Pegada de Carbono e a Pegada Hídrica.

Alguns cases de sucesso

Um dos exemplos mais conhecidos de como a ACV pode ajudar na redução da pegada ambiental é o da Coca-Cola que, após analisar o impacto de suas embalagens, mudou toda a linha de produção de latas e garrafas. Somente a mudança nas garrafas de vidro provocou uma redução de emissão de 26 mil toneladas de gás carbônico.

Em outro exemplo, bem mais polêmico, a ACV foi aplicada para avaliar o impacto de sacolas de supermercado. Qual sacola tem menor impacto sobre o meio ambiente: a de papel ou a de plástico? Ao final, o estudo conclui que a pegada de uma sacola de plástico é menor do que a de papel, quando considerado todo o ciclo de vida do produto. Segundo a publicação, sacolas de papel consomem mais água na produção (4x mais) e têm maior impacto de emissões como resíduo por produzirem metano em aterros sanitários. Resultados semelhantes foram encontrados por outros estudos no Reino Unido e na França.

Finalmente, o pesquisador holandês Jan M. Kooijman analisou os impactos de um produto agrícola e chegou à seguinte conclusão sobre a pegada ambiental:

  • 49% se referem ao plantio, cultivo, colheita e/ou processamento;
  • 11% são da distribuição;
  • 16% dizem respeito ao resfriamento para conservação;
  • 14% são do preparo;
  • 10% se devem à embalagem, divididos em 7% para a embalagem primária e 3% para o transporte.

De posse desses resultados é possível avaliar onde estão os maiores impactos para o meio ambiente, o que fomenta a pesquisa e o investimento em soluções que reduzam essas pegadas. A ACV tem um papel relevante para ajudar a indústria, o governo e a sociedade a trabalharem pela melhoria dos produtos, da gestão dos impactos ambientais e do consumo responsável.

Você ainda tem dúvidas sobre a Análise de Ciclo de Vida? Quer saber como aplicar a metodologia em sua empresa? Entre em contato com a gente!

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