Risco climático: uma chamada para a geração de valor

Risco climático: uma chamada para a geração de valor

risco climático

As consequências de uma atuação ineficiente frente às mudanças do clima vêm ficando mais evidentes no ambiente corporativo. O custo econômico dos impactos climáticos em 2017 foi de 344 bilhões de dólares (AON, 2018). O momento é, portanto, propício para análise do risco climático pelas empresas e para a revisão de suas políticas de adaptação e mitigação. Essa é uma demanda já existente por parte dos investidores, que desejam saber se as organizações estão realmente preparadas para enfrentar os potenciais gargalos que serão trazidos pela mudança do clima.

Conforme abordamos em nosso post “O custo oculto da mudança do clima”, investidores poderão retirar ativos de companhias que não consigam demonstrar ações para gerar valor a médio e longo prazo. Será que as organizações estão preparadas para lidar com esse risco?

Mas, afinal, o que é risco climático?

Segundo a Task Force on Climate-related Financial Disclosures (TCFD), composta por investidores de diversos setores, os riscos climáticos podem ser classificados em riscos de transição e riscos físicos.

Os riscos de transição são aqueles que surgem no caminho para uma economia de baixo carbono, podendo ser: regulatórios, legais, tecnológicos, de mercado ou reputacionais.

Os riscos regulatórios dizem respeito às políticas governamentais de mitigação e adaptação às mudanças do clima. Entre essas políticas, tem-se a precificação do carbono e a taxação das emissões de gases de efeito estufa (GEE), que já são realidade em vários países.

Leia aqui o Guia de Precificação de Carbono desenvolvido em parceria com o CEBDS.

Já os riscos legais correspondem aos processos judiciais que as organizações podem sofrer pela gestão inadequada dos impactos do clima sobre as comunidades em que atuam. Seley & Dudley (2016) revelam um aumento da procura dos tribunais por pessoas físicas, municípios, seguradoras, acionistas e organizações de interesse público para discutir prejuízos cuja causa é atribuída à negligência da questão climática por empresas ou governos.

A necessidade de incorporação de novas tecnologias aos processos produtivos também contribui para o risco climático, dado seu potencial de afetar a competitividade e os custos de produção. Assim, o aumento da eficiência energética e o investimento em energias de baixa emissão de GEE, por exemplo, podem trazer vantagem competitiva frente a empresas que não fazem esforços para modernizar seus processos. Para essas, o risco tecnológico será, então, relevante.

Além disso, a demanda e o fornecimento de produtos serão afetados pelas mudanças do clima, constituindo um risco de mercado. Para reduzi-lo, a busca por novas frentes de negócios por meio de colaboração em projetos governamentais de baixo carbono e o fomento a pequenos empreendedores e a comunidades locais são ótimas oportunidades. Os riscos reputacionais ficam evidentes quando pensamos na responsabilidade empresarial na tomada de ações em prol da sociedade. Esse tipo de atitude constrói determinadas imagens da organização diante de sua conduta frente à mudança do clima, portanto, a adoção de boas práticas nesse cenário é uma ótima chance de elevar a reputação da empresa.

risco climáticoJá os riscos físicos podem ser agudos, quando desencadeados por eventos climáticos extremos, como ciclones e inundações, ou crônicos, relativos a consequências que virão a longo prazo, como o progressivo aumento do nível dos oceanos.  Assim, tais riscos ameaçam a integridade de estruturas físicas e a segurança das populações, portanto, devem ser levados em conta nas políticas de mitigação e adaptação às alterações do clima.

Todos esses riscos podem afetar a geração de valor pelas empresas e, portanto, precisam ser internalizados em seu planejamento estratégico. Aí está o desafio. As empresas precisam chegar ao ponto de considerarem o risco climático tão importante quanto os já tradicionais riscos corporativos. Para que isso aconteça, é preciso que o risco financeiro associado ao risco climático seja bem definido pelas empresas, de acordo com a especificidade de seu negócio.

Os riscos financeiros associados à mudança do clima

A extensão dos impactos do risco climático sobre os negócios depende dos fatores específicos a que uma organização está exposta e de seu planejamento para lidar com tais riscos.

O TCFD lista diversos riscos financeiros que serão trazidos pelas mudanças do clima a longo prazo. Tais riscos concentram-se em dois eixos: aumento dos custos operacionais e redução da receita dos negócios. A tendência é que com políticas climáticas mais rígidas, somadas à pressão por alternativas tecnológicas que reduzam as emissões de GEE e à demanda do consumidor por novos produtos, os processos produtivos encareçam.

É relevante, também, apontar que os atuais compromissos definidos pelos signatários do Acordo de Paris não são consistentes com a meta de limitação da temperatura global a 2ºC, com esforços para 1,5ºC, em relação aos níveis pré-industriais, até 2100.

É mais provável que, até o fim do século, o aquecimento global esteja próximo de 3ºC (CICERO, 2017). O alcance das metas do Acordo depende da implementação de políticas climáticas pelos países e da ampliação do uso de tecnologias menos carbono intensivas.

Veja o nosso post “Ganhos de eficiência: um caminho para a NDC brasileira”

No entanto, a concretização de tais fatores nos níveis necessários para limitar o aquecimento global a 2ºC ainda é incerta. Assim, maiores perdas de valor no mercado podem ser esperadas caso a meta do Acordo de Paris não seja alcançada.

O que os investidores querem?

Diante da urgência de alinhar a publicação de dados às exigências dos investidores, a TCFD lançou no último ano seu relatório final com recomendações para otimizar a divulgação de informações relativas ao clima pelas empresas. Entre essas orientações estão a definição dos riscos financeiros e a adoção de cenários econômicos e climáticos para quantificação dos riscos a longo prazo.

Até julho do presente ano, 315 organizações de todo o mundo já se comprometeram a adotar as recomendações do TCFD. Verifica-se aí a relevância do risco climático para essas empresas, que já entendem sua possibilidade disruptiva no planejamento financeiro a longo prazo. Por exemplo, é possível identificar três aspectos nos quais as empresas vêm tendo maiores dificuldades para adotar as recomendações do TCFD. São eles: a adoção de cenários, a identificação de oportunidades de crescimento em meio às novas diretrizes e o engajamento de stakeholders nas mudanças. Uma das bases para implementação desses aspectos é a transparência de dados acerca das políticas empresariais relacionadas ao clima.

CDPEntre as plataformas de dados disponíveis sobre o tema, o CDP é a maior iniciativa. Sua rede de investidores e compradores representa mais de 100 trilhões de dólares, utilizando os dados coletados pela plataforma para tomar decisões quanto aos seus futuros investimentos.

Dado o seu papel relevante para o setor financeiro, o CDP não poderia deixar de aderir às recomendações do TCFD. Por isso, a iniciativa adotou mudanças em seu sistema neste ano, com o objetivo de atender ao princípio fundamental dito pelo TCFD: as empresas devem fornecer dados específicos quanto aos riscos financeiros relacionados às mudanças do clima.

Veja o post “Latin America Supply Chain Resilience Index

Entre as alterações na abordagem do CDP está a elaboração de questionários específicos para setores de alto impacto. No ano de 2018,  esses questionários já foram endereçados a empresas dos setores de agricultura, energia, materiais e transporte. Para o ano de 2019, novos setores serão incluídos. O CDP também incluiu métricas que avaliam impactos do clima a longo prazo, de forma a orientar as análises para riscos futuros.

Logo, a tendência é que sejam exigidas informações cada vez mais específicas e consistentes por parte dos investidores, para que, assim, possam ter mais segurança na tomada de decisões. Não é mais suficiente que as corporações conheçam o seu impacto sobre o clima, mas que também atuem na gestão dos riscos climáticos e divulguem suas atividades com clareza. Muito além de ser um trabalho a mais, a atuação frente às mudanças climáticas é uma oportunidade de redução de custos operacionais e de melhoria da imagem pelas organizações.

Para assegurar a perenidade de seus negócios, é necessário que as empresas identifiquem as fragilidades financeiras às quais podem ser expostas. E, seguindo melhores padrões de divulgação de dados relativos à sua estratégia climática, oportunidades de crescimento poderão ser traçadas. Os investidores já deixaram suas necessidades claras. Cabe às empresas, então, reconhecerem o risco climático e se preparem para gerir suas consequências.

 

Referências:

AON 2018: http://www.aon.com/2017-global-risk-management-survey/download-reports.jsp

Final Report: Recommendations of the Task Force on Climate-related Financial Disclosures (June 2017) https://www.fsb-tcfd.org/publications/final-recommendations-report/

Shades of Climate Risk: Categorizing climate risk for investors. CICERO Center for International Climate Research. https://www.cicero.oslo.no/en/climateriskreport

Anthesis Group: Experiences from the front line. Disponível em: <https://www.tcfdhub.org/> Acesso em 07/08/2018.
SELEY, P, DUDLEY, R. “Emerging Trends in Climate Change Litigation,” Law 360, 2016. https://www.gibsondunn.com/wp-content/uploads/documents/publications/Seley-Dudley-Emerging-Trends-In-Climate-Change-Litigation-Law360-3-7-16.pdf Acesso em 07/08/2018.

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