A liquefação das fronteiras organizacionais no âmbito da agenda climática.

Autores: Carla Leal e Henrique Pereira

“A Era da Resiliência: a pandemia como laboratório corporativo” evidenciou 3 transformações estruturais levantadas por meio do contato com mais de 100 profissionais de diversos níveis organizacionais, dentre esses 34 CEOs de grandes empresas, a respeito da Pandemia da Covid-19.

Uma dessas transformações é a liquefação das fronteiras organizacionais, ou seja, a substituição de uma visão tradicional dos limites físicos da organização por uma visão mais fluida e amplificada das responsabilidades e do território de atuação. A pandemia foi a precursora na liquefação das fronteiras exigindo respostas sistêmicas. A mudança climática acelerará esse processo, reconfigurando a abrangência das estratégias corporativas.

Ao longo de 2020, a incorporação do tema climático nas agendas de conselheiros e executivos se intensificou. Como consequência, cresceu a necessidade de entender suas responsabilidades efetivas e as metas com as quais pudessem se comprometer para a solução desse problema complexo.

Por um lado, a ciência indica que temos uma curta janela para ação: as emissões de gases de efeito estufa (GEE) precisarão atingir seu pico até 2030 e seguir uma forte tendência de redução para que um balanço zero de emissões seja alcançado até 2050. Por outro, o aumento da temperatura média global ultrapassa 1,2ºC em comparação ao período pré-industrial com consequente aumento de frequência e intensidade de eventos climáticos extremos.

Para garantir uma atuação efetiva, no contexto climático, as organizações precisam rapidamente compreender o significado estratégico da liquefação de suas fronteiras. A trajetória de emissões alinhada ao Acordo de Paris e aos preceitos científicos de limitar o aquecimento global em 1,5ºC, demandará atuação coordenada ao longo das cadeias de valor. Dados do CDP indicam que as emissões das cadeias são cinco vezes maiores que as emissões diretas de GEE das corporações. Posto de outra forma, qualquer estratégia corporativa exitosa de mitigação de GEE deve incluir a cadeia de valor.

De forma análoga, a gestão de riscos e a redução das vulnerabilidades climáticas dos negócios também dependerá da integração e incorporação das cadeias de valor. Na Era da Resiliência a atuação corporativa no contexto da responsabilidade fiduciária e do gerenciamento de riscos deverá, obrigatoriamente, ampliar a abrangência de atuação para incorporar fornecedores e clientes chave.

Na prática, o inventário de emissões de GEE, que em muitos casos era tido como apenas um registro organizacional, passa a ser um instrumento importante para a análise das fontes de emissão e das oportunidades de redução. Muitas empresas, inclusive, passaram a criar cenários financeiros para a mitigação das emissões de forma custo-efetiva identificando vantagens econômicas na transição de baixo carbono.

A integração da agenda climática permitiu que empresas pioneiras identificassem rapidamente as oportunidades de ampliação de suas fronteiras de quantificação de emissões. Como algumas  empresas acabam por se deparar com um cenário em que a maior parte de suas emissões de gases de efeito estufa advém de sua cadeia de suprimentos há a necessidade de pensar ações com abrangência adequada.

Um bom exemplo de liquefação das fronteiras organizacionais no contexto do gerenciamento de GEE são as oportunidades de insetting que permitem que as empresas reduzam suas emissões em projetos desenvolvidos em cooperação com suas cadeias de valor. Na verdade, alguns setores altamente emissores possuem imensas oportunidades de redução de emissão se uma visão integrada de análise de reduções de GEE for implementada.

Assim, ao assumir metas de redução, as empresas não devem se restringir às suas próprias operações. Conhecer as emissões, no entanto, é apenas a primeira parte do processo. Para o estabelecimento de uma meta é necessário também responder à questão: “qual é a redução de gases de efeito estufa que a empresa deve realizar de forma que a sua contribuição seja, no mínimo, proporcional àquela necessária para que o aquecimento do planeta se limite à 1,5º Celsius?”.

Ou seja, dentro do orçamento de emissões a que o planeta deve se manter, qual é o valor proporcional com o qual a empresa deve se comprometer, considerando, inclusive, sua cadeia de suprimentos? Metas de redução alinhadas sistematicamente a um limite de aumento de temperatura são denominadas metas baseadas na ciência, também conhecidas como metas SBT (Science Based Targets).

Metas SBT são ambiciosas e requerem um alinhamento, em nível estratégico, da agenda climática ao negócio. Em outras palavras, conselhos e executivos são confrontados não pela capacidade de redução da empresa (“o que a empresa pode fazer”) mas pela responsabilidade proporcional da empresa no enfretamento da mudança climática (“o que a empresa precisa fazer”).

É inteligente, portanto, ampliar a busca por iniciativas e projetos de redução de emissão custo-efetivos em um contexto ampliado, que inclua tanto as operações das empresas mas também seus fornecedores. Por exemplo, no setor de alimentos, mais de 80% das emissões ocorrem fora da etapa de industrialização e criam oportunidades de redução de emissão, incluindo soluções baseadas na natureza, associadas ao aumento da produtividade no campo

Fica claro que engajar organizações nesse caminho envolve decisões estratégicas, incluindo investimentos em novas tecnologias, eficiência de processos, substituição de fontes de energia e outros projetos de médio e grande porte. Essas decisões, no entanto, cabem aos executivos e conselheiros que precisam se preparar para lidar com um tema estratégico emergente e com amplas consequências, positivas e negativas, aos negócios.

No centro do desafio está a necessidade de mudança de entendimento de que as fronteiras organizacionais não são mais representadas pelos muros das fábricas, e que os limites das responsabilidades corporativas estão sendo redefinidos. Não será uma tarefa fácil mover conselheiros e executivos a aprovar investimentos e a adotar sistemas de governança que incluam suas cadeias de valor. Contudo, este desafio é uma etapa fundamental a ser vencida para as empresas que desejam ter sucesso na transição de baixo carbono.

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